Democracia praticada, aprendida e vivida na universidade
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Democracia praticada e aprendida e vivida na universidade
Transcrição do Original automatizada Obs: Transcrição autorizada (texto completo): https://uni-tuebingen.de/securedl/sdl-eyJ0eXAiOiJKV1QiLCJhbGciOiJIUzI1NiJ9.eyJpYXQiOjE3OTEzNTg3NTUsImV4cCI6MTc5MTQ0ODc1NSwidXNlciI6MCwiZ3JvdXBzIjpbMCwtMV0sImZpbGUiOiJmaWxlYWRtaW4vVW5pX1R1ZWJpbmdlbi9FaW5yaWNodHVuZ2VuL1plbnRyYWxlX0VpbnJpY2h0dW5nZW4vQnJhc2lsaWVuX1plbnRydW0vRG9rdW1lbnRlL1RyYW5za3JpcHRfRGVtb2NyYWNpYV9wb3J0Ll8zMS4wN19Lb3JyaWdpZXJ0LnBkZiIsInBhZ2UiOjMzOTh9.yhVdwiXJQm6NcuKu5gGMU9LzuyjpoFHKMyB5T6MFzOs/Transkript_Democracia_port._31.07_Korrigiert.pdf
Interlocutores: Luiz Carlos Bombassaro (Brasil) e Rui Vicente Oppermann (Brasil) Obs: Shortbio Bombassaro: https://uni-tuebingen.de/securedl/sdl-eyJ0eXAiOiJKV1QiLCJhbGciOiJIUzI1NiJ9.eyJpYXQiOjE3OTEzNTg3NTUsImV4cCI6MTc5MTQ0ODc1NSwidXNlciI6MCwiZ3JvdXBzIjpbMCwtMV0sImZpbGUiOiJmaWxlYWRtaW4vVW5pX1R1ZWJpbmdlbi9FaW5yaWNodHVuZ2VuL1plbnRyYWxlX0VpbnJpY2h0dW5nZW4vQnJhc2lsaWVuX1plbnRydW0vc2hvcnRfYmlvX0JvbWJhc3Nhcm8xMS4wNi4yMDI2LnBkZiIsInBhZ2UiOjMzOTh9.OMDU_ZdsKHDRi4yEtpGu1KBJBOjdACWDdJQGDTnQ8MM/short_bio_Bombassaro11.06.2026.pdf Shortbio Oppermann: https://uni-tuebingen.de/securedl/sdl-eyJ0eXAiOiJKV1QiLCJhbGciOiJIUzI1NiJ9.eyJpYXQiOjE3OTEzNTg3NTUsImV4cCI6MTc5MTQ0ODc1NSwidXNlciI6MCwiZ3JvdXBzIjpbMCwtMV0sImZpbGUiOiJmaWxlYWRtaW4vVW5pX1R1ZWJpbmdlbi9FaW5yaWNodHVuZ2VuL1plbnRyYWxlX0VpbnJpY2h0dW5nZW4vQnJhc2lsaWVuX1plbnRydW0vc2hvcnRfYmlvX09wcGVybWFubjExLjA2LjIwMjYucGRmIiwicGFnZSI6MzM5OH0.oWuVirdvB8pzfjVl_Lh1WMQXOo0cbveRXPGXiWpLH5Q/short_bio_Oppermann11.06.2026.pdf
Date: 10/29/2025 Duration: 42:50 min Transcrição para leitura : https://uni-tuebingen.de/securedl/sdl-eyJ0eXAiOiJKV1QiLCJhbGciOiJIUzI1NiJ9.eyJpYXQiOjE3OTEzNTg3NTUsImV4cCI6MTc5MTQ0ODc1NSwidXNlciI6MCwiZ3JvdXBzIjpbMCwtMV0sImZpbGUiOiJmaWxlYWRtaW4vVW5pX1R1ZWJpbmdlbi9FaW5yaWNodHVuZ2VuL1plbnRyYWxlX0VpbnJpY2h0dW5nZW4vQnJhc2lsaWVuX1plbnRydW0vRG9rdW1lbnRlL1RyYW5za3JpcHRfRGVtb2NyYWNpYV9wb3J0Ll8zMS4wN19Lb3JyaWdpZXJ0LnBkZiIsInBhZ2UiOjMzOTh9.yhVdwiXJQm6NcuKu5gGMU9LzuyjpoFHKMyB5T6MFzOs/Transkript_Democracia_port._31.07_Korrigiert.pdf
Luiz Carlos Bombassaro: Olá. O professor Rui Vicente Oppermann e eu, Luiz Carlos Bombassaro, vamos nos deter hoje numa pequena fala sobre democracia praticada, aprendida e vivida nas universidades do Brasil e da América Latina.
A democracia e a educação geralmente andam de mãos dadas e são mutuamente dependentes. Em muitas regiões do mundo, as preocupações com o declínio da democracia passaram a ser o centro das atenções políticas, sociais, da mídia e da sociedade em geral nos últimos anos. As universidades são instituições importantes na estrutura democrática, não apenas no contexto da sociedade como um todo, mas também em sua própria organização. Questões sobre o acesso à universidade e ao direito de opinar e de votar os assuntos internos pelos membros da universidade são fundamentais para a cooperação de todos os envolvidos nesta instituição.
Grande parte do corpo discente entra em contato com conceitos democráticos nas formas e possibilidades organizacionais pela primeira vez. Isso inclui desenvolvimento de sua própria convicção e capacidade de formular e representar suas próprias opiniões e pontos de vista. Muitas vezes nos perguntamos quais são as vantagens e quais são as desvantagens, se pudermos dizer, das apresentações e das colocações que se fazem tanto ao nível dos professores quanto ao nível dos alunos quando associados ao processo da democratização. E em que medida o estado administrativo e ideológico da universidade estão intimamente relacionados.
A partir desta pequena introdução, eu gostaria de ouvir o professor Rui sobre a experiência que ele tem com a administração da universidade, mas também com o seu trabalho docente e o seu trabalho de pesquisador considerando a experiência em múltiplas atividades que vão exatamente da sala de aula, da bancada de pesquisa, do laboratório até a coordenação, a gestão universitária e a coordenação de todos os programas de intercâmbio acadêmico que o professor Rui tem desenvolvido nos seus anos de trabalho junto à universidade.
Rui Vicente Oppermann: Pois então, eu gostei dessa colocação porque ela me permite dizer que eu sou fruto dessa experiência universitária que a gente tem no início das nossas vidas acadêmicas como estudantes. Porque, quando eu entrei na universidade, eu fui exposto a um mundo, que é esse mundo universitário, que é um mundo transformador. É impossível você entrar numa universidade e sair da mesma forma que você entrou. Ela é transformadora.
E a forma como essa transformação acontece vai depender exatamente do que nós estamos aqui conversando, isto é, o ambiente democrático que existe dentro da instituição é um definidor de quanto você consegue construir o que a universidade tem de melhor, que é o espaço que você tem de dissensos, consensos, e a exposição a diferentes ideias, diferentes experiências, ao contraditório, aprender a conviver com outros.
Isso tudo é muito importante para a experiência individual. E num segundo momento, já como
gestor dentro da universidade, essas questões, elas se transformam-se em outras obrigações. E uma delas é manter, preservar esses ambientes de democracia, porque eles estão dados, mas eles não estão garantidos.
Luiz Carlos Bombassaro: Nós sabemos bem exatamente disso, se considerarmos especialmente o que vivemos depois dos anos 80 no Brasil e se fizermos uma retrospectiva da nossa própria experiência em relação aos últimos 40 ou até 50 anos de Universidade Brasileira.
Rui Vicente Oppermann: Exatamente. Eu acho que a Universidade Brasileira e de certa forma as latino-americanas como um todo, embora elas tenham se espelhado nas universidades europeias, elas adquiriram uma configuração própria.
Mas algumas coisas são basilares dentro da universidade como tal, e uma delas é a liberdade acadêmica. E a liberdade acadêmica não é só do docente, é a liberdade acadêmica da comunidade e do seu entorno também. Por isso que a universidade atrai tanto no que ela faz, seja porque ela constrói, seja porque quem não se interessa pelo que a universidade faz em perseguir a universidade.
Então, a limitação desse espaço é uma tentativa autoritária porque se sabe que isso, que essa construção, ao se construir essa cidadania, também ela promove a libertação da pessoa.
Luiz Carlos Bombassaro: Como se a universidade fosse também um laboratório social nesse aspecto de, de construção das próprias relações democráticas.
Nós que vivenciamos universidades em períodos totalitários, ou pelo menos em períodos autoritários, nós percebemos bem a diferença. que desenvolvemos nas últimas décadas. Acho isso muito bem-posto. Quer dizer, a universidade é também um lugar de construção democrática nesse aspecto que mostra, ou reflete, ou - de alguma maneira também - assimila aquilo que está posto pela sociedade como um todo.
Rui Vicente Oppermann: Exato. E essa questão, quando você pensa em termos da, da gestão da universidade, no Brasil, particularmente, nós temos um preceito constitucional, um artigo da Constituição, que garante a autonomia universitária, que garante a gestão de orçamento, que garante o ensino, a pesquisa e a extensão. Portanto, aí está uma palavra que é a palavra da carta superior do país, que estabelece isso, mas isso não é o suficiente.
Luiz Carlos Bombassaro: E nós temos experiências muito diferentes também de ensino superior nas instituições brasileiras, porque se tomamos, por exemplo, a diferença entre as instituições privadas, particulares e as instituições públicas estatais, nós perceberemos que mesmo o sistema administrativo, o sistema de gestão das universidades, sofre influências e tem a ver com determinantes que são variáveis.
O que se pode dizer é que a experiência da universidade pública, sobre a qual podemos nos ater provavelmente mais na nossa fala de hoje, representam também um modelo de gestão que não se pode tão facilmente considerar como se fosse um modelo brasileiro. Nós temos diversas formas de compreensão do que é o modelo universitário no país.
Rui Vicente Oppermann: Eu acho que as universidades públicas, financiadas pelo Estado, elas são as que mais se aproximam daquilo que nós entendemos como sendo uma universidade que preserva a autonomia que preserva a liberdade de cátedra, que promove o ensino, pesquisa e a extensão e, principalmente, ela permite, ela cria os espaços para o exercício democrático interno.
As outras universidades que têm mantenedoras, sejam elas comunitárias, religiosas ou mesmo fundos de investimento, acabam não tendo esse mesmo espaço pela própria natureza do que elas são. Mas nas públicas, isso é uma garantia e sempre foi. E aí a gente tem essa experiência de ter passado por momentos de autoritarismo, de totalitarismo, enfim, em que a universidade se preservou, ela não se preservou senão porque a comunidade interna estava organizada e entendia que essa democracia é, no fundo, um legado. É o que tem que ser mantido e preservado para que a universidade possa exercer a sua função. Então, acho que aí as universidades também são um espelho para a sociedade. A sociedade se mira nas universidades como exemplo desse espaço de debate, de discussão.
Luiz Carlos Bombassaro: De discussão. Onde certamente vive-se do dissenso. Busca-se sempre acordos, parte-se de perspectivas e de posições diferentes. Os grupos de pesquisa ou as próprias unidades que compõem a universidade apresentam suas demandas de modo diferente, com diferentes propósitos, mas também, de alguma maneira, assimilam e assumem o compromisso social de repassar ou de interagir com a sociedade de uma maneira que se possa desenvolver projetos que tenham em vista um certo compromisso social, que tenham em vista uma certa experiência que vai exatamente na direção de superação das diferenças e das posições e das lutas, digamos, e de interesses particulares e individuais ou de grupos.
Rui Vicente Oppermann: Mas, mas veja que situação interessante: No período, por exemplo, da ditadura cívico-militar que nós tivemos, a universidade foi um locus de resistência.
Luiz Carlos Bombassaro: Exatamente.
Rui Vicente Oppermann: Onde havia uma unidade de resistência, onde, como eu disse, a própria sociedade ia à universidade para respirar a liberdade e a democracia que ali existia. E a ditadura não foi capaz, por mais que tentasse, de calar, de mudar ou de eliminar esses espaços. Mas veja: Agora nós estamos numa situação diferente.
Carlos Bombassaro: Claro.
Rui Vicente Oppermann: Agora, o autoritarismo vem dentro, ...
Luiz Carlos Bombassaro: ... por outros meios,
Rui Vicente Oppermann: ... por outros meios, dentro do próprio espectro democrático.
Luiz Carlos Bombassaro: Claro.
Rui Vicente Oppermann: Nós estamos hoje assistindo a uma construção da extrema direita que se aproveita do espaço democrático para se colocar, negando exatamente todas essas capacidades, toda essa questão do contraditório. Porque, simplesmente, nega a possibilidade de uma discussão, de uma construção dialética que seja.
Luiz Carlos Bombassaro: Penso que é exatamente esta manutenção ou esta resistência, que permite que se conserve o espírito democrático da universidade como um valor ético básico. Acho nesse aspecto muito importante o que você diz, Rui, que a própria instituição elabora essa tensão permanente do debate e mesmo que se mostrem forças contraditórias dentro da instituição, a universidade, por ser o espaço crítico, ela é a instituição que melhor pode elaborar as diferenças, que melhor pode elaborar as contradições. Nesse aspecto, concordaria perfeitamente contigo nesta análise.
Rui Vicente Oppermann: Eu acho que esses movimentos de extrema direita que agora tiveram a coragem de se mostrar dentro da universidade, eles não vão conseguir também destruir o ethos universitário ou esse ambiente criado tão essencial para a universidade porque ele está afirmado não só pelas estruturas, pelas legislações, mas pelo reconhecimento da própria comunidade de que isto é importante e essencial que se tenha esse espaço de resistência ou de colocações que se façam em termos de que nós temos que olhar para a universidade para o que ela diz.
Luiz Carlos Bombassaro: A discussão é permitida e mais que permitida. E mais que permitida, ela é exigida. Ou talvez não só desejada, mas é praticada. Isso leva de novo à afirmação de que, de fato, as universidades só podem ser como tal um espaço de prática e de desenvolvimento de experiências democráticas.
Mas um aspecto que me pareceria importante destacar, Rui, é a questão, primeiro, do acesso à universidade e ao ensino superior no Brasil. Nos últimos tempos, nós temos vivido grandes avanços em termos de acesso à universidade pública. Uma das questões que certamente se põe aqui é que as medidas tomadas recentemente visam a diminuir a desigualdade e a oferecer oportunidade de acesso de modo mais amplo. Pela experiência que você tem, você poderia considerar que essas experiências das cotas universitárias, por exemplo, ou esses programas das ações afirmativas nas universidades, eles se inserem evidentemente num panorama que poderá resultar em grande medida numa prática ainda mais democrática dentro das instituições?
Rui Vicente Oppermann: Eu diria que a decisão que agora é uma lei das cotas, das ações afirmativas, é uma das políticas públicas mais bem sucedidas na educação superior do país, na história da educação superior do país. Nós vivemos uma universidade branca, elitista, e hoje as nossas universidades estão pintadas de todas as cores. Eu acho que é muito importante, vou mencionar o ex-reitor João Carlos Salles, numa conferência, ele é da Bahia.
A Bahia, como a gente sabe, é um estado onde a presença de descendentes africanos é muito grande.
Luiz Carlos Bombassaro: É predominante.
Rui Vicente Oppermann: É predominante. Acho que foi meio surpreendente. “Olha, as cotas trouxeram para dentro da Universidade Federal da Bahia os negros.” Isto é, numa sociedade de ampla maioria de negros, Também lá a universidade não permitiu o acesso. E esse acesso, ele tem sido fundamental em vários aspectos. Primeiro, provou que as ações afirmativas não diminuem a qualidade da universidade. O pessoal que era contra as ações afirmativas dizia que a gente ia acabar com a qualidade da universidade trazendo essas pessoas mal preparadas, que não tinham condição de ser universitários. Isso não é verdade.
Luiz Carlos Bombassaro: Às vezes o contrário.
Rui Vicente Oppermann: Pois, às vezes, ao contrário. Eu sempre me emocionei muito, nos salões de iniciação científica, quando cotistas foram premiados como jovens pesquisadores nas suas áreas, mostrando que isso era um preconceito mesmo.
E a segunda questão que eu acho que é importante, na verdade mais duas. Uma é de que as cotas nos exigiram entender o que significa a presença dessas pessoas e os desafios que eles têm de estar presente na universidade. Uma coisa é um branco da classe média entrar na universidade, tem a família em sua volta dando seu apoio, e outra é uma pessoa que mora lá numa ilha distante, que tem que pegar um ônibus, que tem que deixar a família, que tem que voltar aqui porque depois tem que voltar para trabalhar. O desafio dele de estar na universidade não é só ter entrado, mas é permanecer também. Eu acho que isso é uma lição que nós aprendemos: Criar condições de permanência.
Luiz Carlos Bombassaro: E isso significa que além desse aspecto fundamental da redução da desigualdade, digamos assim, na questão do acesso, se percebe também desde a perspectiva interna da universidade, que a universidade soube, de alguma maneira, auscutar, escutar a sociedade e, desta escuta, derivou um novo quadro para a composição do corpo docente da instituição. Isso põe um pouco também a condição de pensar a universidade não única e exclusivamente como produtora de mão de obra. Isto põe a universidade como capaz de compreender os anseios de uma sociedade, especialmente considerada a sociedade brasileira e latino-americana, de uma sociedade que precisa lutar contra as suas iniquidades. E a universidade, nesse sentido, sendo uma instituição que preza pela democracia, que preza
pelo espírito democrático, dá uma resposta que é uma resposta, evidentemente, a nível de formação que vai bem além de pura e simplesmente oferecer um diploma às pessoas.
Rui Vicente Oppermann: Depois de tantos anos de políticas afirmativas e das cotas já sendo aplicadas nas universidades públicas federais do Brasil, tem um outro aspecto que vai ao encontro disso que tu estás colocando, Luiz Carlos, que é o seguinte: Nós, a universidade, também nos beneficiamos demais com a presença dessas pessoas. Essas pessoas nos mostraram um mundo que, na melhor das hipóteses, era um caso de estudo e não uma realidade. E não uma realidade que estava ali nos colocando e nos modificando. Então, hoje a universidade tem expressões culturais, expressões políticas, expressões religiosas que são fruto dessa presença.
Luiz Carlos Bombassaro: Ela ampliou consideravelmente a diferença e a capacidade de lidar com a sua universalidade.
Rui Vicente Opperman: ...a sua universalidade.
Luiz Carlos Bombassaro: Sobre esse aspecto, talvez a questão importante das universidades brasileiras também é a consideração dentro desta perspectiva das vagas para indígenas que hoje estão acessando a universidade, não somente como discentes, mas também já, em grande medida, em muitas universidades públicas como docentes, como pesquisadores.
Rui Vicente Oppermann: Esse é um grande desafio no Brasil. Primeiro porque nós descobrimos os indígenas, no sentido de que a gente conferiu a eles cidadania, coisa que durante a ditadura, o que foi tentado mesmo era o extermínio, genocídio dessas pessoas. Também reconhecemos os quilombolas, que também não existiam dentro do censo populacional.
Luiz Carlos Bombassaro: Exatamente.
Rui Vicente Oppermann: O Brasil tem, eu não sei, mas são mais de 130 diferentes línguas indígenas, espalhadas por todo o território, que a gente conhece. Pode até haver outras que não se conhecem. E tem culturas, manifestações culturais muito grandes.
Onde eu quero chegar? O governo brasileiro está por lançar um projeto que é da Universidade Indígena. Esse projeto é um projeto construído junto com a comunidade indígena. Aliás, melhor dito, nós estamos juntos, eles é que estão construindo. É um projeto multicampi, com uma sede que será em Brasília, por opção deles. Será uma universidade que será coordenada com docências da própria comunidade indígena.
E é um verdadeiro ato corajoso, porque não se trata de criar uma universidade classe B. Tem que ser uma universidade que expresse as verdades das necessidades dessa população e que a sociedade entenda e se beneficie disso. É um grande desafio.
Temos alguns exemplos na América Latina dessa questão. Nós discutimos isso na Conferência Regional de Educação Superior. Temos na Bolívia, temos no Peru, temos no Equador. Tem pessoas que dedicam suas vidas a isso. E é muito interessante de ver como a universidade é transformadora para essas pessoas no sentido de visibilidade. no sentido de terem também uma independência econômica, social.
E a expectativa para nós é muito maior, porque ninguém quer que os nossos indígenas se tornem consumidores, mas sim que eles tenham a noção de que eles podem como cultura, se colocarem dentro dessa perspectiva da universidade.
Luiz Carlos Bombassaro: ...dessa experiência da universidade.
Rui Vicente Oppermann: Então, isso é um aspecto que eu acho que é fundamental, é um grande desafio.
Luiz Carlos Bombassaro: Este me parece ter sido também um aspecto muito inovador do ponto de vista da consideração em relação ao conhecimento: Ao fato de respeitarmos - não pura e simplesmente de um modo externo - mas de considerarmos que as produções simbólicas e das próprias comunidades devem ser valorizadas de tal maneira que não se imponha na universidade um modelo, digamos, único de conhecimento.
Quer dizer, a pluralidade dos saberes constitui esse conjunto de relações que as universidades democráticas do país hoje, me parece, estão pensando.
Agora, o grande desafio, evidentemente, é como estender essa experiência de modo a poder também não mais sermos únicos exclusivamente importadores de modelos universitários, mas também apresentar ao mundo este modelo universitário brasileiro.
E nesse aspecto eu gostaria também de entrar nessa perspectiva destes modelos da administração e da gestão acadêmica, com essa pluralidade de formas e de modos de ser, como isso poderá fazer e mostrar ao mundo que o espaço que a universidade tem hoje é um espaço muito promissor. É um espaço que permite a congregação de diferenças políticas, de diferenças ideológicas, de todas as diferenças que possamos imaginar, na medida em que nós podemos ver um certo caráter de amplitude deste assumir essa condição dos diferentes atores que, em diferentes culturas, se mostram presentes na instituição e não de uma universidade, digamos, homogênea.
Nós não temos mais a pretensão de termos uma universidade completamente homogênea, como a experiência histórica da instituição na cultura tradicional tem. Evidente que aqui me parece que há uma questão muito importante, que é este aspecto da gestão democrática dos saberes.
De como esses diferentes modos de saber devem ou podem ser conectados, de que modo eles podem ser administrados, de que modo podem ser gerenciados. Então, a meu ver, essa introdução, essa aceitação dessa pluralidade implica assim também desafios e aquilo que você diz me parece, me parece muito presente.
Rui Vicente Oppermann: É.
Luiz Carlos Bombassaro: Considerando isso, talvez se pudesse pensar um pouco na questão de como é que se imagina ou pelo menos como é que a nossa experiência resolveu as diferenças advindas dessas diferentes formas de vida e diferentes formas de compreensão do mundo, as indígenas, os quilombolas, a nossa universidade tradicional, a introdução das importantes contribuições da cultura afro.
Rui Vicente Oppermann: Veja bem. Eu acho que o sistema universitário brasileiro, a academia formada, foi formada na recente história. A nossa Universidade vai fazer 100 anos agora. Primeiro, nós evoluímos muito. Segundo, nós temos um padrão de qualidade muito grande para quem tem só 100 anos de existência. No sistema universitário, o Brasil foi um dos últimos países da América Latina a ter universidades. Mas a nossa academia foi formada basicamente na Europa e nos Estados Unidos. Isso fez com que, em um determinado momento, a gente reproduzisse os sistemas europeus e norte-americanos ou estadunidenses dentro do Brasil. E muito do que se fazia, se fazia com um olhar para lá.
Luiz Carlos Bombassaro: Sim!
Rui Vicente Oppermann: Claro que isso...
Luiz Carlos Bombassaro: Uma certa dependência de modelo.
Rui Vicente Oppermann: Dependência.
Mas também, ao mesmo tempo, nós criamos um sistema robusto de pesquisa...
Luiz Carlos Bombassaro: Sim.
Rui Vicente Oppermann: ... pós-graduação que hoje nos permite dizer assim: ”Não, volto lá!” A nossa relação com vocês não é mais de dependência. Nós queremos uma relação de cooperação
Luiz Carlos Bombassaro: De cooperação, de parceria.
Rui Vicente Oppermann: ... onde os nossos problemas podem e devem ser parte fundamental dessa relação. Isto é, nós temos situações em que vocês podem cooperar conosco para a solução. Que é uma solução de interesse comum, por exemplo, crise climática.
Luiz Carlos Bombassaro: Claro.
Rui Vicente Oppermann: Que a gente sabe que existe.
((ambos riem))
Luiz Carlos Bombassaro: Exatamente. Exatamente.
Rui Vicente Oppermann: Mas assim, esse é o primeiro aspecto. Nós atingimos uma maturidade acadêmica que nos permite, no cenário internacional, não sermos mais apenas usuários, consumidores.
Luiz Carlos Bombassaro: ... usuários, consumidores. Importadores. ...é.
Rui Vicente Oppermann: Nós somos hoje propositores. Nós estamos propondo cooperação. E essa cooperação está proposta tanto para o Norte Global como para o Sul Global.
Em certo modo especialmente para o Sul Global. Exatamente porque ali a gente encontra muitas das identidades que aqui dentro estão a nos chamar para que tenhamos essa possibilidade de colocação de alguma perspectiva para eles. Então eu acho que esse é um aspecto importante.
Como também é, Luiz Carlos, eu acho, o fato de que dentro da universidade, além da sala de aula, a experiência que você tem na pesquisa, na extensão, no próprio dia-a-dia, é às vezes tão ou mais importante do que a própria sala de aula.
Luiz Carlos Bombassaro: Sim.
Rui Vicente Oppermann: Então, isso é outro aspecto que as nossas universidades latino-americanas têm, que as europeias não têm tanto.
Luiz Carlos Bombassaro: Claro.
Rui Vicente Oppermann: Por exemplo, a extensão como uma forma de você ter um relacionamento com a comunidade, com o seu entorno. Não de prestação de serviço, mas sim de construção de conhecimento e de relação. Também a formação profissional, claro, mas além da formação profissional, essa questão de encaminhamento de soluções que são necessárias.
Eu acho isso muito, muito importante e faz parte exatamente disso que estás colocando. Hoje as universidades, elas têm uma problemática, essa problemática busca cooperação no exterior, mas ela também tem a participação democrática da comunidade na definição...
Luiz Carlos Bombassaro: ...na definição dos seus propósitos.
Rui Vicente Oppermann: Isto.
Luiz Carlos Bombassaro: Esta ideia de uma prática democrática na gestão universitária e na sala de aula, talvez seja um aspecto importante a, de fato, ressaltar ainda mais na medida em que os nossos modelos universitários, mas também, eu diria mais, a nossa prática dentro da universidade na qual trabalhamos, expressam de modo mais adequado a participação dos envolvidos no processo.
Digamos: Em que medida uma comunidade de pesquisa dentro da universidade pode não ser democrática? Pareceria quase que à nossa experiência inadequado aceitar a ideia de que não fosse levado a sério uma atitude ou um comportamento ou uma relação democrática entre os participantes de uma comunidade de pesquisa.
Por outro lado, na questão gerencial, na questão do gerenciamento da instituição, é evidente que ela não pode se dar sem a participação de diferentes institutos, de diferentes grupos, de diferentes comunidades de investigação, das diferentes áreas etc., evidentemente, mesmo que todas elas, que todos esses grupos, todas essas unidades, não tenham evidentemente a mesma compreensão do que é o conceito de democracia. O que importa aqui, é o que ocorre na prática da gestão democrática. É como é que se resolve isso.
E penso que também na questão da sala de aula há um elemento muito importante quando se pode considerar que a participação dissente, por exemplo, ganha um peso preponderante contra um modelo tradicional de ensino que não expressava nenhuma intenção de considerar válido aquilo que era anseio dos próprios dissentes.
Rui Vicente Oppermann: Claro.
Luiz Carlos Bombassaro: Então, acho que aqui há elementos muito interessantes que podem ser pensados nessa relação de democracia com as comunidades de pesquisa, com os grupos de pesquisa, a democracia com as estruturas acadêmicas da gestão universitária e a democracia como o espaço de desenvolvimento do próprio processo de ensino-aprendizagem nas nossas salas de aula, nos nossos laboratórios, etc.
Embora é preciso admitir que não se parta nunca, especialmente na sala de aula, de uma simetria completa entre quem ensina e quem aprende, mas nós podemos pensar que há uma redução significativa dessa diferença, dessa desigualdade ou dessa assimetria na medida em que os processos de construção coletiva do conhecimento, da ciência, do saber se desenvolvem. Então, me parece que esse é um aspecto importante que inocula a democracia nos ambientes específicos do cotidiano da universidade.
Rui Vicente Oppermann: Eu acho que o acesso à informação que hoje a internet nos dá, ela colocou em xeque o professor. Mais do que qualquer um, o professor.
Porque o professor era um transmissor de conhecimento. E ele usava essa autoridade perante os alunos. Hoje isso está muito relativo. Eu ousaria dizer que não necessariamente o professor entra em uma sala de aula sabendo mais que os seus alunos. Ele tem que saber, não em termos de conhecimento, mas de como é que se constrói o conhecimento.
Então, não é a transmissão de informação mais a obrigação do professor, mas é como é que se constrói o conhecimento, como se vai além da fronteira do conhecimento. Isso é o grande desafio do professor na sala de aula.
E, se não for isso, os alunos vão entrar em qualquer rede de informação e vão ter a informação mais atualizada que o próprio professor.
Eu acho isso fascinante como um desafio, porque nos coloca, nós que já temos uma rodagem grande como docentes, frente a uma situação que a gente nunca imaginou. Você não pode mais achar que você é a autoridade máxima dentro da sala de aula porque você tem a informação. Você tem que ser a autoridade máxima porque você é capaz de levar as pessoas a uma transformação do seu conhecimento.
Luiz Carlos Bombassaro: É.
Rui Vicente Oppermann: É isso na sala de aula. Na comunidade, a situação é bem mais complexa.
Eu não sei se a universidade, se nós podemos ter omo espelho da universidade as comunidades, uma cidade, por exemplo, onde o exercício democrático se dá pelas estruturas, pela eleição e que há aí também toda uma questão, vamos assumir uma democracia verdadeira, que há uma igualdade de oportunidades e não os interesses econômicos prevalentes que em alguns países deturpam a democracia porque o mais rico acaba se elegendo. Também tem que ter esse cuidado.
Mas eu não sei se na universidade isso acontece. Por quê? Porque na universidade, a universidade também trabalha com a questão do mérito. Isto é, um pesquisador é uma pessoa que produz conhecimento. Portanto, ele é diferente do aluno no que se refere ao que cada um está fazendo dentro da universidade. E o técnico também é diferente desses dois, porque ele é a pessoa que faz a infraestrutura, que trabalha.
Então assim, respeitadas essas questões, eu fui reitor de uma universidade, eu entendo perfeitamente que no ambiente da construção das políticas de desenvolvimento da universidade, no seu plano de desenvolvimento institucional, na definição de aplicações orçamentárias, enfim, comunidade como um todo deve fazer o exercício democrático.
Coisa que hoje no Brasil ainda não tem, porque os conselhos superiores são setenta por cento docentes e quinze por cento estudantes e quinze por cento servidores. O que é uma representação! Em muitas universidades latino-americanas, por exemplo, os servidores não têm voz.
Luiz Carlos Bombassaro: Não têm participação.
Rui Vicente Oppermann: Em outros, estudantes não têm voz.
Luiz Carlos Bombassaro: E você, como considerar recentemente no Brasil, essa experiência importante da discussão paritária das decisões dentro da instituição?
A mim parece que isso ainda não está suficientemente elaborado, que está em elaboração, que está em processo. Portanto, eu diria que aqui põe um elemento importante do próprio exercício democrático. As instituições que implementaram a paridade têm as suas respostas já, mas elas também têm percebido os prós e os contras de termos uma representação paritária no sentido universal, digamos.
Rui Vicente Opperman: É.
A representação paritária na eleição dos dirigentes, ela acaba tendo uma confrontação com a estrutura dos conselhos que não é paritário. Então, quando chega na hora de dialogar com o conselho, o reitor que foi escolhido paritariamente, ele tem que trabalhar com o conselho que não é paritário. Entaõ isso...
Luiz Carlos Bombassaro: Claro. Isso cria tensões.
Rui Vicente Oppermann: Isso cria tensões. Com certeza. Aqui na nossa universidade o que nós fizemos? As comissões que trabalhavam nos conselhos superiores com definição, por exemplo, a política de cotas. Eu participei da comissão que propôs ao conselho superior as políticas de cotas. Era uma comissão paritária. Então, nós trabalhamos com comissões paritárias para oferecer ao Conselho Superior, que não é paritário, decisões ou propostas ou políticas que emanaram da situação.
Então, na verdade, hoje se você mudar o Conselho para um Conselho paritário, frente a essa situação de que as decisões que estão sendo ali tomadas já são decisões paritárias, não vai fazer muita diferença.
Luiz Carlos Bombassaro: Certo.
Rui Vicente Oppermann: Eu acho que isso é muito importante.
Luiz Carlos Bombassaro: Claro.
Rui Vicente Oppermann: Não é assim em todas as universidades, mas na nossa universidade se criou - vamos dizer assim - esse atalho para dar representatividade paritária nas decisões também. E eu acho que isso é muito bom para essas questões. Sempre lembrando, a universidade é um locus de meritocracia, de mérito.
Luiz Carlos Bombassaro: Sim.
Rui Vicente Oppermann: Nós somos uma instituição de educação, uma instituição de pesquisa, de extensão. E isso tem que ser relevado sempre que a gente pensar em termos de políticas para a universidade.
Luiz Carlos Bombassaro: Mas a questão, talvez que ressalte de modo muito presente essa ideia da relação entre o espírito democrático e a universidade, parte de um pressuposto fundamental de que evidentemente as decisões não emanam de uma estrutura top-down, mas de uma estrutura bottom-up.
Isso significa que as universidades públicas brasileiras não podem ser também tomadas a partir de uma imagem única, dada a sua experiência plural, né?
Rui Vicente Oppermann: Isto.
Luiz Carlos Bombassaro: É um pouco essa consciência já desenvolvida pela experiência vivida, pela experiência realizada.
Rui Vicente Oppermann: Isto.
Luiz Carlos Bombassaro: Obrigado, Rui. Vamos agradecer a oportunidade de estar fazendo esse podcast.
Rui Vicente Oppermann: Com certeza, com certeza. É um grande prazer, uma satisfação.
Luiz Carlos Bombassaro: E esperamos ter contribuído para aumentar ainda mais os nossos laços de cooperação internacional.
Rui Vicente Oppermann: Com certeza. Obrigado.
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